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Cosmetic InnovationFashionDaMata MakeUp quer educar o mercado da beleza

DaMata MakeUp quer educar o mercado da beleza

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Como muitos jovens negros, Daniele da Mata já tinha uma rotina superatribulada aos 15. Adolescente, vivia com a família em São José dos Campos (SP), passava os dias em Jambeiro, a 40 minutos, trabalhando como auxiliar de produção em uma fábrica de cosméticos, para então retornar a São José, onde frequentava o Ensino Médio à noite.

Na fábrica, foram cinco anos passando por várias áreas. Uma experiência que se mostraria essencial, depois, em sua jornada de empreendedorismo. Daniele, 29, é a fundadora da DaMata Makeup, que se anuncia como a primeira escola de maquiagem para pele negra do Brasil.

Aquele início de carreira também a ajudou a entender melhor o que é ser uma mulher negra. Entre fórmulas e cosméticos, ela se aproximou de um colega de trabalho, Levy, de cerca de 40 anos, que se tornou uma espécie de mentor. Os dois eram os únicos negros que conviviam na fábrica.

Em 2010, aos 20, ela deixou a fábrica, em busca de um novo caminho. Fez um curso profissionalizante de maquiagem da rede Embelleze e, esporadicamente, conseguia trabalhar como maquiadora. Enquanto isso, pagava as contas ralando em empregos e bicos diversos: recepções, restaurantes, eventos, vendas de produtos de catálogos.

O plano era juntar grana para o cursinho pré-vestibular e tentar uma vaga na faculdade de Direito — o que nunca aconteceu. Sonho adiado, ela ia formando o seu portfólio. Ser maquiada por Daniele era como frequentar uma aula: o serviço de uma hora durava duas ou mais, porque ela gostava de ensinar as técnicas profissionais às clientes. Uma delas, Nelsa Salles, um dia propôs: por que não montar uma escola de maquiagem?

Autoestima virou tema central

O ano era 2012. Sem capital de giro para começar o negócio, Daniele ficou seis meses trabalhando no setor administrativo de uma loja de jipes até conseguir 5 mil reais para pagar espelhos, cadeiras, decoração e parte do aluguel do imóvel de sua escola. A jornada dupla prosseguiu após a inauguração. No horário comercial, ela pegava no batente num restaurante na rua de trás. À noite, era professora de automaquiagem.

A escolha do ponto comercial, em uma região elitizada de São José dos Campos, se mostrou um equívoco. “Eu só bancava aquela estrutura sem ela se pagar”, diz. A escola ficava fora do caminho do seu público-alvo, e a empreendedora compensava essa distância oferecendo preços baixos, 20 a 30 reais por aluna. Havia sempre uma ou outra negra na turma (nessa fase, a escola não era especializada), e a presença foi aumentando. O contato fez Daniele perceber que as aulas com elas eram diferentes.

Trabalhar a autoestima era necessário, e as próprias alunas começaram a sugerir cursos específicos. A primeira iniciativa focada em maquiagem para pele negra surgiu em 2013, em parceria com uma delas, que produziu uma edição das aulas em São Paulo. Daniele, então, convidou Michelle Fernandes, criadora da Boutique de Krioula, para oferecer aulas de turbante após a aula de automaquiagem para pele negra.

A dobradinha deu certo e, naquele ano, as duas levaram o curso a São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Na capital baiana, Daniele foi tremendamente impactada pelo contato com tonalidades diversas de pele negra. Ainda no aeroporto, esboçou o projeto “Negras do Brasil” com a ideia de rodar o país falando sobre autoestima e autocuidado para mulheres negras, fazendo em paralelo conexão com marcas de maquiagem.

Ela se deu conta que, para este salto, precisava voltar a estudar. “Entendi que se eu não tivesse outro curso, não conseguiria ganhar mais dinheiro, não teria um nome na profissão”, diz. Foram meses até conquistar uma bolsa integral no curso de maquiadora profissional do Senac São Paulo. Assim, em 2014, Daniele fechou a sede da escola em São José, vendeu o que tinha, investiu em equipamentos como espelhos portáteis para aulas itinerantes e se mudou para a capital, hospedada de graça na casa de um amigo.

Em São Paulo, a DaMata Makeup se transformou numa escola móvel, sem endereço fixo. O networking criado nas viagens com Michelle e nos primeiros meses na cidade gerou trabalhos pontuais como maquiadora de noivas e em sets de publicidade. Ainda em 2014, uma matéria no site da jornalista e consultora de moda Glória Kalil deu visibilidade a Daniele e rendeu entrevistas para outros veículos de comunicação.

Em meio à ralação do dia a dia, ela lutava para tirar o “Negras do Brasil” do papel, o que aconteceu em 2015. Naquele primeiro ano, ainda sem apoio de marcas, Daniele procurou mulheres que trabalhavam com estética e questões raciais para conseguir suporte logístico. Em 2016, a Avon apoiou a empreitada, bancando locação do espaço para aulas, alimentação, estadia e transporte em seis cidades paulistas. Em 2017, a MAC viabilizou a mesma logística para que o projeto chegasse ao Nordeste.

Para Daniele, sempre foi importante cobrar pelo serviço oferecido enquanto as marcas participavam apoiando a infraestrutura do projeto.

Essa parceria, porém, minguou nos últimos anos, com sucessivos “nãos” recebidos de marcas — negativas que podem ter sido influenciadas pelo contexto econômico. O “Negras do Brasil” foi suspenso e no momento está hibernando, para ser retomado quem sabe em 2020. Daniele enxugou a equipe que a acompanhava em São Paulo (e conta hoje com um apoio administrativo, uma agente, duas pessoas de marketing e colaboradores pontuais), decidiu parar de maquiar noivas e se focar nas aulas.

Hoje, a DaMata Makeup oferece seis serviços de maquiagem para peles negras. O carro-chefe são as aulas de automaquiagem para iniciantes. A escola tem um curso de aperfeiçoamento em peles negras para maquiadores profissionais e atende demandas de ensino customizadas. Outra área de atuação é por meio de consultoria para marcas de produtos de beleza que querem expandir ou adequar sua oferta para pele negra.

A empreendedora se queixa de um certo racismo velado, na forma de olhares tortos de algumas pessoas no entorno dos espaços que ela ocupa com sua escola itinerante. Por conta disso, recentemente Daniele tentou estabelecer-se num endereço fixo. Comprou equipamentos, espelhos, cadeiras, e contratou arquitetos para fazer o projeto. Mas a ideia não avançou, implicando num prejuízo de R$ 30 mil em investimentos. “Sabe a sensação de entender que o seu mercado não está pronto? Que não é ainda a hora?”

Encontrar uma casa própria ainda está nos planos. De certa forma, as dificuldades que a DaMata Makeup enfrenta hoje são parecidas com a realidade de 2013 e 2014. No ano passado, a escola faturou R$ 120 mil, mas ainda não tem acesso a serviços bancários básicos de uma empresa, como um cartão de crédito. Por outro lado, após sete anos de mercado, Daniele ressalta a importância dos frutos do seu negócio:

Para o futuro, a dona da DataMata MakeUp quer continuar investindo em cursos digitais em plataformas de maquiagem, levando seu olhar para a questão da autoestima, e criar também um curso online para profissionais. Outra frente é a produção de conteúdo para fortalecer a relevância de produtos para pele negra. Daniele hoje é colunista do Garotas Estúpidas (site de Camila Coutinho, blogueira de moda pioneira no país), o que lhe permite levar sua mensagem a um novo público, menos ligado à temática racial.

Em um país onde as empresas do setor ainda não têm uma cartela de cor razoável para a pele negra, transformar a DaMata Makeup em uma marca de maquiagem seria talvez um caminho óbvio — mas não é o que Daniele vislumbra agora. Sua motivação é educar o mercado e as pessoas. Para ela, é fundamental que as gigantes do ramo de beleza no Brasil vejam as mulheres negras como consumidoras e materializem esse reconhecimento na comunicação, no atendimento e na oferta de produtos.

 

 

Fonte: Projeto Draft 17.07.2019

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