Visit Us On TwitterVisit Us On FacebookVisit Us On LinkedinVisit Us On Instagram
Cosmetic InnovationRadarVocê sabe o que é o Body Neutrality?

Você sabe o que é o Body Neutrality?

  • Written by:
O Body Neutrality é o caminho do meio para ter uma relação libertadora com a própria imagem

Se existe alguma dúvida de que contestar os padrões de beleza femininos é algo incômodo, basta olhar para a carreira literária da escritora norte-americana Naomi Wolf. No icônico livro The Beauty Myth: How Images of Beauty Are Used Against Women, de 1990, ela analisa como o mercado e a mídia de massa oprimiam e excluíam as mulheres da sociedade com padrões estéticos impossíveis de serem alcançados pela maioria, com dados sobre anorexia, compras e tratamentos de beleza custosos em termos de tempo, dinheiro e saúde. Foi massacrada pela imprensa e pela opinião pública em geral. Três anos mais tarde, a autora – considerada uma das vozes da terceira onda do movimento feminista – acabou por publicar outro livro, Fire with Fire: The New Female Power and How to Use It, em que abrandava seus argumentos.

Quase 30 anos se passaram e muita coisa mudou: as pressões que antes eram emitidas em normas explícitas hoje operam de forma mais velada, mas isso não significa que elas deixaram de perpetuar a noção de que os corpos femininos são imperfeitos e precisam ser depilados, emagrecidos, embranquecidos, com cabelos alisados e silhuetas alongadas. A lista é longa e parece insaciável. Por isso, movimentos como o Body Positive ganharam importância ao ressignificar características que sempre foram vistas como imperfeições.

Agradecemos a modelos como Ashley Graham e Candice Huffine por mostrar que o amor-próprio é capaz de funcionar como libertação. Muitas vezes, porém, aplicá-lo de forma incondicional pode acabar virando mais uma pressão – deixando duplamente frustradas as mulheres que não conseguem mudar de imediato a maneira de pensar e encarar conceitos arraigados. Nesse contexto, vem ganhando força um novo movimento, chamado Body Neutrality, um primeiro passo rumo a uma relação menos tóxica e impositiva consigo mesma.

“A neutralidade corporal é um espaço psíquico que não corresponde ao amor nem ao ódio ao próprio corpo”, explica Anne Poirier, diretora do programa intitulado Body Neutrality, no Green Mountain at Fox, centro de bem-estar em Vermont (EUA), que há 40 anos trata transtornos de imagem corporal. Ao perceber a dificuldade de muitas pacientes no processo, Anne encontrou no novo conceito o caminho do meio. “Se você diz para uma pessoa que a única saída é amar aquilo que ela nunca gostou, ela pode ficar ainda mais desesperada por não saber como fazer isso.”

A teoria na prática

Para vivenciar o Body Neutrality, uma das dicas é considerar o caráter funcional do corpo. Afinal, ele é muito mais do que uma imagem ou uma coxa mais fina ou grossa: é graças a ele que somos capazes de abraçar amigos, ir ao trabalho e ler, entre outras atividades mais importantes do que a beleza. Outra tática é imaginar o que você faria se tivesse o corpo que sempre sonhou e, a partir disso, agir como se já o tivesse. Assim, você se prova que, independentemente de alcançar o suposto shape ideal, é capaz de fazer tudo o que quer da maneira como é.

Muitas pessoas já vivem o Body Neutrality, mas não sabem disso. Esse era o caso da coolhunter Nina Grando, que entrou em contato com a ideia recentemente e percebeu como ela já vinha sendo aplicada à sua vida. “Tenho deficiências nas mãos e no pé direito e sei que causam estranheza. Não é algo que seja sempre fácil de lidar. Por isso, gosto tanto da ideia de neutralidade”, acredita ela, que lembra ter sofrido por causa de situações impensáveis para quem não vive em sua pele – como assistir a cenas de comédias românticas em que o galã colocava o anel no dedo da mocinha. Foi nas redes sociais que Nina se sentiu acolhida. “Elas me deram poder de voz, de me mostrar e de seguir pessoas inspiradoras que não aparecem na televisão.”

Não à toa, é pelo Instagram que o Body Positive e, agora, o Body Neutrality ganham força. Eles se tornaram uma espécie de resistência contra a febre fitness que se estabeleceu na plataforma (algo que, em contrapartida, transformou o aplicativo em um dos mais prejudiciais à saúde mental). Que o diga a jornalista Mirian Bottan. Em 2015, ela se tornou referência ao escrever um texto sobre como a vida fitness a ajudou a superar a bulimia. A nova prática, porém, acabou culminando em outro extremo: a ortorexia, um transtorno relacionado à noção equivocada de que você se define pela sua dieta. “A ferramenta havia mudado, mas a obsessão era a mesma. Afinal, a ortorexia é outro problema e a fixação pelo corpo continuava ali. Na verdade, ela ficou ainda maior porque comecei a me comparar com todo mundo”, diz.

Hoje, com uma perspectiva mais neutra em relação à sua imagem, Mirian usa o humor para quebrar o tabu de que alimentação regrada, exercícios físicos e magreza seriam fontes absolutas de felicidade. Suas montagens invertidas de “antes e depois” se destacam no mar de fotos que focam barrigas negativas e coxas que não se tocam. “Naquela época, tirava fotos de partes específicas do meu corpo e costumava não exibir meu rosto. Na terapia, aprendi a me enxergar como uma pessoa inteira, com interesses que vão além da busca pelo padrão de beleza. Pensar demais no corpo me afastava do resto, até por uma questão de tempo”, completa a jornalista.

 “Meu problema com o discurso de ame seu corpo é que ele pede que as mulheres regulem suas emoções, e não só seu corpo”, diz Autumn Whitefeld-Madrano, autora do livro Face Value: The Hidden Ways Beauty Shapes Women’s Lives, ao site The Cut. “Não vejo a pressão sobre as mulheres diminuir. Parece uma exigência para que tenham a autoestima à prova de balas. O amor corporal se foca demais no corpo.”

Para muitas meninas, o Body Neutrality funciona como a primeira etapa até chegar ao Body Positive. É a ideia de conseguir se olhar no espelho sem julgamentos para depois se livrar da comparação com a imagem viciada do que é bonito. Voz representativa das mulheres negras e gordas, a hairstylist Amanda Coelho, também conhecida como Diva Green, passou por esse processo. “Hoje, muitas vezes, quando posto uma foto, não estou tão bem, mas resolvo fotografar mesmo assim e falar sobre isso. Passei a não ter problema sobre mostrar minhas falhas porque não sou uma pessoa perfeita. É um processo diário de desconstrução de padrão”, descreve a garota de cabelos verdes, que também se livrou dos tratamentos químicos alisadores, dos quais foi refém por anos.

Numa sociedade tão imagética e cheia de preconceitos como a nossa, construir uma imagem é algo que pode trabalhar a nosso favor. Mas, quando isso vira um esforço que define quem somos, será que não estamos dando atenção demais a essa imagem? O Body Neutrality sugere a desconexão como a saída desse impasse. “Conceitos de beleza têm sido usados por séculos para machucar pessoas, e acho difícil desfazer esse dano”, diz Melissa A. Fabello, especialista norte-americana em imagem corporal. “Uma alternativa é trabalhar rumo a um mundo em que a beleza não seja o indicativo do valor de qualquer pessoa.”

Fonte: Elle

Agradecemos a leitura, compartilhe!

Home

Categorias

Nossos Portais

Nossos canais

Parceiros